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Análise Comportamental

A análise comportamental financeira é uma sub-área da análise comportamental que procura estudar de que forma é que a psicologia influencia os comportamentos dos indivíduos numa perspetiva financeira.

Cada vez mais, certos acontecimentos e anomalias no mercado são explicados com base em determinados comportamentos dos investidores e é por essa razão que esta análise tem tido cada vez mais importância nos dias de hoje.

O principal propósito da análise comportamental financeira é o de ajudar a perceber e explicar porque é que alguns indivíduos tomam certas decisões financeiras e de que forma é que essas decisões podem afetar os mercados financeiros. Desta forma é necessário assumir que os indivíduos não são perfeitamente racionais e que as suas decisões são influenciadas pelas suas emoções e por determinadas tendências, pressupostos estes que não são incluídos em inúmeros modelos económicos.

Um dos elementos mais importantes da análise comportamental financeira é o estudo de biases. Estes são comportamentos ou pensamentos irracionais desenvolvidos pelos indivíduos e que, muitas vezes, são prejudiciais no seu dia-a-dia.

Geralmente, os biases na análise comportamental financeira podem ser classificados numa das seguintes categorias que se seguem.

5 Principais categorias

Contabilidade Mental

Introduzido em 1999 por Richard Thaler, economista e vencedor de um prémio Nobel.

Refere-se ao diferente valor que as pessoas atribuem a coisas que têm o mesmo valor monetário, baseando-se em critérios subjetivos e que, muitas das vezes, conduzem a resultados prejudiciais. Por norma, este comportamento leva a decisões irracionais por parte dos indivíduos.

Para um melhor entendimento deste conceito, verifiquemos um exemplo prático do mesmo: bónus salariais. Aquando do recebimento destes bónus, a maioria dos indivíduos tende a gastar este dinheiro extra em algo que não gastaria com a sua remuneração habitual. Isto acontece, pois, torna-se mais fácil de justificar a si mesmo e a outras pessoas uma compra mais irracional ou extravagante. No entanto, o valor do dinheiro do bónus salarial em nada difere do seu salário habitual, logo, não deve ser visto como inferior ou descartável.

Este comportamento também é relevante no mundo dos investimentos, já que muitos investidores fazem a distinção entre “portfólios seguros” e “portfólios especulativos”, alocando mais tempo na análise e preparação do primeiro, pois, designam o valor investido nos ativos mais especulativos como “dinheiro que está disposto a perder”. No entanto, esta designação é uma pura criação mental, na medida em que um investidor racional não colocaria parte do seu dinheiro num ativo, sabendo que, muito provavelmente, iria perder essa mesma quantia.

De forma a evitar este comportamento o indivíduo deve atribuir o mesmo valor a todo o seu dinheiro, não fazendo distinções com base na origem e na aplicação do mesmo.

Comportamento de rebanho

Trata-se de um fenómeno que estima que alguns investidores tendem a seguir as tendências do mercado, ou seja, aquilo que percecionam que os outros investidores estão a fazer, ao invés de confiarem nas suas próprias análises e convicções.

Este comportamento não acontece somente no mundo dos investimentos, tendo aplicação prática no nosso quotidiano, uma vez que o ser humano tem tendência para adotar muitos dos seus atos, crenças e opiniões, com base naquilo que observa de outros indivíduos.

Alguns exemplos ilustrativos são assistir a uma série, filme ou ler um livro, apenas porque toda a gente está a falar sobre isso ou, também, a vontade de fazer parte de certos movimentos sejam eles políticos, sociais, religiosos ou desportivos, por notarmos uma grande adesão aos mesmos, entre muitos outros exemplos.

Focando na perspetiva do investidor, o comportamento de rebanho pode ser responsável tanto por abruptas subidas ou descidas no mercado das ações, devido aos fenómenos de panic buying e panic selling, ou seja, comprar quando os preços estão a subir e quando há expectativas positivas face a uma certa ação. Isto também está relacionado com o fear of missing out (o medo de perder uma grande oportunidade de investimento que outros investidores estão a aproveitar) e vender quando os preços estão a descer ou quando existe um certo sentimento negativo por parte de outros investidores face a uma determinada ação.

Ora, estas repentinas alterações de procura provocam grandes oscilações nos preços das ações, podendo conduzir tanto a bolhas como a crashes da bolsa.

Embora possa parecer que este comportamento só traz consequências nefastas, a verdade é que há alguns aspetos positivos no comportamento de rebanho para certos investidores iniciantes e menos informados. Estes podem beneficiar, não apenas ao seguirem a estratégia de outros investidores mais experientes, como também ao utilizar “estratégias de rebanho” como é o caso de alguns fundos de investimento de gestão passiva que se limitam a seguir um determinado índice de mercado.

De forma a evitar este comportamento, o indivíduo deve basear as suas decisões com base em critérios objetivos e racionais, não permitindo que as emoções tenham algum tipo de influência na sua decisão, por mais difícil que isso possa ser.

Lacuna emocional

Refere-se à tomada de decisão irracional, movida por sentimentos extremos, tais como a ganância e o medo, que estão intrinsecamente ligados ao conceito de comportamento de rebanho, visto serem algumas das razões justificativas da sua adoção.

O mercado de ações é comumente visto como uma forma de enriquecimento, sendo que, face a essa perceção, surgem comportamentos caracterizados pela exuberância irracional, uma vez que desconsideram a duração de obtenção dessa riqueza.

Assim, devido à volatilidade do mercado de ações, os investidores ficam mais vulneráveis a emoções, visto que são obrigados a sair da sua zona de conforto, de modo a acompanhar o rebanho.

Por um lado, num bull market, os investidores são movidos pela ganância, pois receiam perder uma oportunidade de investimento fácil e rápida, que eles assumem que fora detetada por alguém. Como tal, decidem adquirir ações que, no momento da compra, já se encontram a um preço exacerbado e completamente desproporcional do seu verdadeiro valor.

Por outro lado, num bear market, os investidores são movidos pelo medo, pois receiam incorrer em perdas, logo optam por vender as suas ações e substituí-las por ativos de menor risco.

No entanto, estaríamos a incorrer em erro, se considerássemos que a lacuna emocional apenas traz desvantagens ao mercado. Na verdade, esta é prejudicial para os investidores que se deixam afetar por ela mas benéfica para aqueles que se abstraem desta tendência.

Assim, tal como disse Warren Buffett “o mercado de ações é um aparelho de transferência de dinheiro dos impacientes para os pacientes”, o que pode ser corroborado, demonstrando os benefícios da adoção de uma estratégia contrária à do seguimento das tendências, movida pelas emoções.

Desta forma, ao fugir da especulação dos preços, os investidores mais racionais optam por comprar ações quando os restantes as vendem, incorrendo assim, em custos de oportunidade, uma vez que compreendem que essas ações estão subvalorizadas, mas que se irão regularizar no futuro, no momento em que o mercado de ações voltar a estabilizar.

Deste modo, compreendemos que a instabilidade emocional dos investidores origina perdas aos mesmos, que apenas são evitáveis, após a compreensão, não só, do grau de risco que estes estão dispostos a incorrer, mas também da definição de uma estratégia sólida, a longo prazo, baseada em fundamentos como o investimento em valor.

Ancoragem

É uma tendência irracional caracterizada pelo uso subconsciente de informações irrelevantes, nomeadamente o preço de aquisição de um ativo, para a tomada de decisões subsequentes sobre esse mesmo ativo. Deste modo, ainda que inconscientemente, atribuímos um peso exacerbado à referência arbitrária, que fora inicialmente apresentada, o que implica que a tomada de decisão será distorcida, precisamente por conter um enviesamento.

Este efeito é observável nas negociações, uma vez que se um vendedor propuser um preço acima do seu justo valor, este tornar-se-á uma âncora, na medida em que as contrapropostas serão, maioritariamente, em função do valor inicialmente apresentado. Ignorando-se, dessa forma, outros elementos importantes, tais como o potencial custo do produto e a margem que o vendedor pretendia auferir. Assim, conclui-se que o preço final de venda tenderá a ser superior àquele que seria acordado, caso o preço inicialmente proposto fosse mais baixo.

O mesmo efeito é visível no mundo dos investimentos, desde logo, no caso de um investidor que compra ações X por 100€. Nesse momento, este fica psicologicamente ancorado ao preço de aquisição, visto que irá condicionar a posterior venda das ações, ou até a aquisição de mais ações X. Logo, nesses instantes o investidor irá ignorar fatores relevantes para uma boa avaliação do valor real de um ativo financeiro, pois ficou condicionado pela referência apresentada.

Por fim, a ancoragem é verificada relativamente ao valor de um determinado índice, na medida em que, se o índice S&P 500 estiver em alta e com um valor de 4000, os investidores estarão mais propensos a prever valores mais próximos desse número, ignorando os registos históricos do mesmo, que são fulcrais para a análise do desvio padrão que indica a volatilidade do valor do índice.

Daqui depreendemos que esta tendência tem como consequência a conservação de investimentos que já perderam o seu valor, assumindo, como tal, maior risco. Isto acontece, visto que os investidores continuam com esperança de que o valor dos investimentos regresse ao preço de aquisição, uma vez que estimaram que esse valor seria igual ao seu justo valor. Desvalorizando, assim, outros elementos fundamentais que iriam permitir uma análise com menos enviesamentos, ou seja, mais próxima do seu verdadeiro valor.

No entanto, os investidores têm consciência desta tendência, logo, de forma a tentar reduzir a imperfeição da sua âncora vão fazendo ajustes à mesma, tendo por base informação que adquirem. O problema é que os mesmos também foram condicionados por uma âncora inicial que poderia estar sobreavaliada.

Assim, a única forma de eliminar este efeito é através de uma análise exaustiva de todas as componentes que afetam o mercado financeiro e o preço do ativo que se pretende comprar ou vender.

Autoatribuição

Refere-se à tendência dos indivíduos atribuírem o seu sucesso às suas elevadas habilidades, esquecendo-se do papel que outros fatores externos desempenham na obtenção desse resultado positivo. Assim, a busca pelo aperfeiçoamento verifica-se, a título de exemplo, quando um investidor tende a enfatizar o papel desempenhado pela sua experiência e inteligência financeira, nos retornos do seu portefólio, desconsiderando, convenientemente, que naquele período o mercado estava em alta.

Deste modo, constatamos que este conceito poderá ser prejudicial para os investidores, uma vez que esta desvalorização de influências externas, leva ao excesso de confiança. O mesmo efeito é verificado pela atribuição de perdas à instabilidade do mercado, de modo a nunca frustrar o seu desempenho que é, a seu ver, sempre acima da média.

Assim, esta tendência de autoatribuição, que não é mais do que um mecanismo de defesa, poderá levar os investidores a descredibilizar, ainda que de forma progressiva, fatores fundamentais de análise de investimentos, tudo com o intuito de atribuir os desfechos positivos à meritocracia e os negativos ao azar.

Como tal, a autoatribuição apenas é evitável, através da consciencialização do papel que a envolvente desempenha no mercado financeiro, pois só assim é que os investidores conseguem alocar e usufruir das suas capacidades integralmente.

O Impacto destes comportamentos nos mercados financeiros

Em síntese, todos estes comportamentos acima referidos apresentam as suas falhas, de uma maneira ou de outra, o que acaba por resultar em impactos nos mercados financeiros mundiais, como é exemplificado na descrição da contabilidade mental com a referência ao comportamento irracional do ser humano depois de receber um bónus salarial, o medo de estar a perder grandes oportunidades de investimento de que toda a gente fala que conduzem a decisões impulsivas e os fenómenos de panic buy e panic selling.

No entanto, não é apenas este tipo de comportamento que condiciona os mercados financeiros. Um exemplo de lacuna emocional que pode ser observado nos dias de hoje são as obrigações emitidas por clubes desportivos. Estas obrigações, mesmo que por vezes não sejam tão atrativas como outras obrigações, acabam por ser obtidas pelos sócios devido à sua forte ligação emocional com o clube.

Biases

Para além das categorias acima apresentadas, existem muitos outros tipos de biases, alguns deles são:

Bias de familiaridade

Este bias afeta principalmente os investidores de retalho que tendem a investir apenas no que conhecem bem, aumentando o seu risco em termos de diversificação. Nestes casos as pessoas apenas concentram o seu portfólio em ativos que conhecem, não diversificando em termos de setor, tipos de investimento, etc.

Apesar de ser muito importante conhecermos exatamente o ativo que escolhemos para investir, esta escolha baseada na familiaridade torna-nos frágeis por apenas nos concentrarmos no que sabemos e não procurarmos saber aquilo que não conhecemos, ficando assim com uma visão mais afunilada.

 Bias de experiência

Este bias ocorre quando a nossa memória guarda uma certa ocorrência/evento, levando-nos a pensar que esse evento tende a ter uma maior probabilidade de voltar a acontecer.

Este marco na nossa memória pode-nos tirar o pensamento mais lógico de como encarar uma certa situação, evitando ou arriscando um certo movimento por atribuirmos uma maior probabilidade de esse evento se repetir. Por exemplo, perante uma crise no mercado bolsista, uma pessoa pode deixar este tipo de investimento por atribuir uma maior probabilidade de esta crise voltar a surgir.

 Bias de confirmação

Este bias pode ser dividido por: interpretação tendenciosa, pesquisa tendenciosa e memória tendenciosa. Cada um deles baseia-se em usar informações para confirmar a tese de investimento já efetuada.

Na pesquisa tendenciosa, estudos revelam que as pessoas tendem a testar certos investimentos pesquisando apenas por evidências que comprovem os mesmos, em vez de pesquisarem por todos os aspetos que sejam relevantes. Na pesquisa de algo, por vezes, alteramos as palavras de forma que a resposta seja aquela que gostávamos de encontrar.

A interpretação tendenciosa baseia-se na forma como com a mesma informação podemos interpretar de maneiras diferentes, neste caso de forma a ir de encontro com a tese já efetuada para um certo investimento.

A memória tendenciosa acontece no caso de reunirmos e interpretarmos todas as informações e aspetos relevantes, apenas as recordamos de uma forma seletiva, escolhendo aquelas que confirmam a nossa tese, este efeito também é chamado de lembrança seletiva.

 Bias de aversão à perda

Este bias é mais específico no mundo dos investimentos, ocorre quando os investidores atribuem uma maior preocupação para evitar perdas do que na obtenção de ganhos num investimento.

Este caso é muito recorrente quando um investimento está a perder dinheiro, as pessoas tendem a segurá-lo de forma a recuperar as perdas.  Normalmente as pessoas admitem rapidamente que estão certas perante um investimento quando este apresenta ganhos, mas o mesmo não acontece quando apresenta perdas. Este bias costuma acontecer por normalmente o investidor se agarrar ao preço de entrada e não aos fundamentos ou atributos que o investimento possa ter sofrido naquele prazo de tempo.

Desta forma, o investidor mantém o investimento que tomou sem uma análise racional ao mesmo, baseando-se apenas no pensamento de não obter perdas. Este é um aspeto muito comum nos investidores de retalho.

Falha de pressupostos nos modelos económicos

Como já antes fora referido, as finanças comportamentais procuram estudar como o comportamento do investidor afeta a sua tomada de decisão, e as devidas consequências, de forma a aplicar este estudo nos modelos de finanças tradicionais, assentes nos modelos.

Nas finanças tradicionais, de forma a simplificar, existem certos pressupostos, como por exemplo:  o investidor é 100% racional (perfeita racionalidade), o investidor procura maximizar apenas o seu bem-estar, auto-interesse e informação perfeita. Pressupostos estes que no mundo real financeiro não se tendem a verificar.

A falha do primeiro pressuposto referido é bastante recorrente, visto que os investidores tendem a cometer erros até mesmo em tarefas simples e com o aumento do grau de complexidade de tarefas, a frequência de erro aumenta.  Relativamente a críticas a este pressuposto, é importante salientar que o Homem tem uma capacidade cognitiva limitada, por isso, mesmo que tivesse acesso a toda a informação disponível, este jamais conseguiria processar toda esta informação. Dado à limitação cognitiva e à incerteza, as decisões ótimas que seriam tomadas deixam de as ser, passando a ser apenas satisfatórias, tal como Herbert Simon referiu: “Evidently, organisms adapt well enough to “satisfice”; they do not, in general, “optimize”.

Relativamente ao pressuposto da informação perfeita, este também não se verifica na realidade, não apenas devido ao aparecimento e existência de inúmeras alternativas de investimento, cada vez mais complexas, mas também graças à racionalidade limitada dos investidores.

Conclusão

Podemos então verificar, tal como referido acima, que os investidores não são puramente racionais, são influenciados pelas suas emoções e nem sempre são capazes de tomar as melhores decisões possíveis, como é explicado pelos comportamentos e biases apresentados pela análise comportamental financeira. Assim, alguns pressupostos assentes em certos modelos económicos perdem o seu significado, já que, cada vez mais esta análise comportamental vai ganhando importância no mundo atual e muitas das anomalias de mercado são explicadas pela irracionalidade dos investidores.

Autores:

António Meireles

Carlos Magalhães

Mafalda Magalhães

Tomás Menezes

Tomás Pelaez

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